Contexto religioso-político e filosófico
Antes de iniciar a breve exposição acerca dos elementos biográficos de um dos mais importantes representantes de Falsafa, é preciso, primeiramente, levar em consideração o contexto religioso-político por ele vivenciado. Afinal, tanto o processo de emancipação do Islamismo e a necessidade de fundamentação das doutrinas próprias do Islã, quanto o famoso círculo de traduções da filosofia grega para o árabe se constituem como eventos fundamentais no desenvolvimento do pensamento filosófico farabiano. O filósofo, a quem foi dado o título de Segundo Mestre11Al-Mu'allim al-tānī, por referência ao "Primeiro Mestre", Aristóteles., não esteve alheio ao seu tempo e, com uma reflexão filosófica voltada para a prática, teve como objetivo pensar sua realidade histórica valendo-se dos estudos que realizara.
Origem e formação em Bagdá
Pouco se sabe sobre a vida de Abū Nasr al-Fārābī. Nascido em data ainda desconhecida, mas se supõe que tenha sido entre os anos de 870-875/ 248-253H, em Farab, na Transoxiana, diz-se que seu pai fora um nobre oficial persa e que cedo seguira para Bagdá, onde se dedicou aos estudos da Filosofia Antiga e da Lógica. Tendo vivido no período da Bagdá Abássida, presenciou, portanto, o ápice do desenvolvimento das escolas filosóficas e teológicas, bem como a maior tolerância no que concerne ao pluralismo religioso e filosófico. Entretanto, foi pouco conhecido até a segunda metade do século XIX.
Tendo, possivelmente, o turco como sua língua materna o turco, al-Fārābī aprendeu, ainda jovem, o árabe e, segundo algumas lendas, outras 70 línguas22Cf. RAMÓN GUERRERO, Rafael. Apuntes biográficos de al-Fārābī. In: Anaquel de Estudios Árabes. Madrid: s/ed, 2003. p. 231-238.. Estudou medicina – mas nunca a exerceu –, ciências matemáticas e a gramática árabe, em Bagdá com Abū Bakr al-Sarrāy (m.929/307H), ao mesmo tempo em que este aprendia lógica com ele. Estudou música – tendo fabricado um instrumento que afirmavam embriagar o espírito – e foi um dos primeiros teóricos medievais a se dedicar ao estudo da Mística.
Constantinopla e o retorno a Bagdá
No período de mudança do califado de al-Muktafi (902-908/280-286H) para al-Muqtadir (908-932/286-1310H), o filósofo deixa Bagdá e vai para Constantinopla, onde se encontrava um núcleo representativo de estudos sobre a filosofia platônica e aristotélica promovido pelo patriarca Focio (820-891/204-277H). Neste momento, após passar vários anos se dedicando aos estudos da lógica junto a Yuhanna b. Haylan, envolve-se com estudos da filosofia grega, obtendo textos platônicos33A respeito da leitura realizada por al-Fārābī dos textos platônicos, cf.: VALLAT, Philippe. Farabi et l'École d'Alexandrie: Des premisses de la connaissance à la philosophie politique. Paris: VRIN, 2004. p. 77. e uma vasta literatura da tradição. Retornando à Bagdá, depois de 920/298H, com considerável bagagem de conhecimento, al-Fārābī conquista numerosos discípulos, entre eles o cristão jacobita Yahya b. 'Adi (893/94-974 / 271/72-352H).
Os anos na Síria
Com uma breve permanência em Bagdá, devido os frequentes conflitos políticos internos, o Segundo Mestre se muda para a Síria, então governada por Sayf-Dawla (916-967/303-355H), "[...] conhecido na história por sua filiação xiita, em cujos salões se respirava um ambiente cultural, elegante e refinado, onde se reuniam homens de ciência, poetas e filólogos renomados"44RAMÓN GUERRERO, Rafael. Filosofias Árabe y Judía. Madrid: Editorial Sintesis, 2001. p.110.. Foi neste momento que escreveu uma de suas principais obras políticas, A cidade excelente (Kitāb al-madina al-fādila), e concluiu a Política (Kitāb al-siyāsa al-madaniyya) – obras cujo fundamento está no propósito de indicar que o melhor caminho para a vida política verdadeira está nas leis que se fundamentam na razão. Nessas obras, al-Fārābī deixa claro a sua preocupação com o momento por ele vivenciado, deixando dúvidas, em alguns estudiosos, quanto a uma possível militância sua com os xiitas, enquanto outros consideram que sua filosofia proporciona suportes ideológicos para os imãs55Acerca da afinidade entre al-Fārābī e os xiitas, cf. RAMÓN GUERRERO, Rafael. El compromiso político de Al-Fārābī ¿Fue un filósofo šī'ī? Actas de las II Jornadas de cultura Árabe e Islamica (1980). Madrid: Instituto Hispano-arabe de cultura, s/informações, 1985. p. 463-477..
Um homem em viagem constante
Al-Fārābī, segundo biografias66Sobre informações biográficas de al-Fārābī, cf. Al-NADIM. The Fihrist. vol.2. Trad. Bayard Dodge, New York: Columbia University Press, 1970. RAMÓN GUERRERO, Rafael. Apuntes biográficos de al-Fārābī. In: Anaquel de Estudios Árabes. Madrid: s/ed, 2003. p. 231-238; RAMÓN GUERRERO, Rafael. Al-Fārābī: O Filósofo e a Felicidade. In: PEREIRA, Rosalie de S. (Org.). O islã clássico: itinerários de uma cultura. São Paulo: Perspectivas, 2007. p. 287-328; RAMÓN GUERRERO, Rafael. Filosofía árabe y judia. Madrid: Editorial Síntesis, 2004. p.107-136; FILHO, Miguel Attie. Falsafa: a filosofia entre os árabes: uma herança esquecida. São Paulo: Palas Athenas, 2002. p. 195-225., é apresentado como um homem que contava apenas com o indispensável para a vida, porém, parecia descontente com as cidades e regimes políticos com os quais tinha contato, o que o levava a realizar constantes viagens. Como ele mesmo indica no Livro da Religião (Kitāb al-milla), "[...] é necessário que os virtuosos que se veem impelidos a residir nas cidades da ignorância, por não existir a cidade virtuosa, tenham de migrar para a cidade virtuosa no momento em que esta passe a existir"77AL-FĀRĀBĪ, Abū Nasr. Libro de la religión. In. Obras filosófico-políticas. Trad. int. e not de Rafael Ramón Guerrero. Madrid: Debate – C.S.I.C., 1992. p. 98.. Como um acréscimo a este suposto motivo, é possível, também, que suas viagens tenham se dado pela afinidade ideológica com os governantes do Egito e do norte da Síria, tendo permanecido nesta até a sua morte, em 950/338H, com exceção de uma breve viagem ao Egito.
A recepção da filosofia grega
No que concerne ao contato com a filosofia grega, al-Fārābī conseguiu reunir um grande volume de fontes, entre as quais se destacam as obras de Aristóteles e Platão, mas que não estavam excluídos comentários e escritos espúrios. Dos textos platônicos é visível a influência sobre as obras de caráter filosófico-político, sendo notória a semelhança existente entre a Cidade Virtuosa (na qual se fundamenta a concepção política farabiana) e a Cidade Ideal formulada por Platão em A República. Já no que diz respeito aos estudos acerca da metafísica e da lógica, é possível perceber que, além da influência recebida de Platão, ele considera as categorias aristotélicas de essência e existência, bem como a ordem hierárquica do universo advindo de uma Causa Primeira. Ademais, em sua filosofia, não pode ser esquecida a influência das doutrinas de vertente neoplatônicas88Principalmente aquelas presentes na Teologia, falsamente atribuída a Aristóteles, e no famoso Livro das Causas, também erroneamente compreendido como de autoria do Estagirita. que, mescladas com as categorias próprias da metafísica aristotélica, resultam em um sistema cosmológico emanacionista que pretendia englobar, não só os problemas puramente metafísicos, mas questões que circundam o homem tanto sob as perspectivas éticas e políticas como físicas e epistemológicas.
A obra e o propósito da filosofia farabiana
É vasto o volume de escritos farabianos bem como de áreas de conhecimento à que destinou atenção99Noticia-se que foram escritos, por al-Fārābī, cerca de 100 epígrafes, embora nem todas elas tenham se conservado até os dias atuais (Cf. FILHO ATTIE, Miguel. Falsafa: a filosofia entre os árabes: uma herança esquecida. São Paulo: Palas Athenas, 2002, p. 198.). Da diversidade das áreas às quais dedicou sua atenção, é válida a leitura de seu Catálogo das Ciências: AL-FĀRĀBĪ, Abu Nasr. Catálogo de las ciencias. 2ed. Trad. de Ángel Gonzales Palencia. Madrid: CSIC, 1953.. No entanto, são maioria os estudos farabianos que visam uma reflexão que pudesse servir de instrumento para possíveis reformas na sociedade – seja na qual ele vivia, seja no âmbito universal. Concordando com Aristóteles, o filósofo árabe também afirma ser a felicidade o fim supremo de todo homem, alcançado, somente, no interior de uma sociedade. Deste modo, suas obras políticas propõem um misto de filosofia prática e teórica, em que todo conhecimento obtido por meio da reflexão deve ter como finalidade sua efetivação no interior de uma sociedade pretensamente perfeita. É com este propósito que o Segundo Mestre concilia a ideia do Rei-Filósofo platônico com a figura do profeta, como quem pretende harmonizar leis universais e crenças particulares.
